Dois contos de Luís Belo e Guilherme Gomes inspirados na nossa alvorada "Acorda Tó".

Obrigado a ambos!

Acorda Tó

Alvorada - Rio d'Onor

Recolhida por Ernesto Veiga de Oliveira

Carmina Repas Gonçalves | viola da gamba

Antony Fernandes | säckpipa

 

António, a manhã

 

Frias. As manhãs são frias no vale. Todas. Durante o Inverno e durante o Verão. A luz está mais tempo longe da terra cercada de montanhas, o rio que corre em baixo é líquida neve, a gente é velha, quase parece seca de sangue no vale, gente enrugada como frutos secos, fria como corpos sem sangue. E António, o Gaiteiro. Todos os dias, todas as frias manhãs, António era o primeiro a acordar. António, o pedaço de sol da aldeia, a fogueira. Saía de casa com a gaita-de-foles pelo braço, caminhava desastrado, ensonado, com frio e duro. No vale ouviam-se os passos da sola de madeira do sapato na pedra da estrada e já se sabia que António ia ser o amanhecer. A gente conhecia a manhã pelo som da gaita-de-foles. Os passos de António eram como o som das estrelas que rebentam para dar lugar ao céu uniestrelar. Os sons da gaita-de-foles eram os raios solares a passar a barreira das montanhas,a torre da igreja a iluminar-se, as sombras a começar de existir - primeiro gigantes, depois mingando para depois começarem a crescer - o dia laranja. As manhãs são um bocadinho mais quentes no vale, depois de António acordar. Era sempre assim, António fazia o ritual da manhã e todos acordavam ao som da melodia que o sol faz ao aparecer. Era assim há tanto tempo que já se haviam esquecido que o sol não faz ruído nenhum quando aparece. O próprio António já se tinha esquecido. Era como se a silhueta das montanhas funcionasse como caixa de música, cada pico era uma nota, e a melodia acontecia por um fenómeno natural. Mas os fenómenos naturais são perigosos, e nem sempre musicais. Um dia o sol apareceu sem melodia. Não se ouviram as estrelas rebentar, e o vale esperava, deitado, a primeira nota do amanhecer para acordar. Mas anota não veio, teria António adormecido? A gente saiu à rua: todos ao mesmo tempo, quase. As sombras já eram de luar. O dia, se existira, não havia aparecido. Onde estaria António? A porta de casa estava fechada. Um velho tremente bateu na madeira com os nós dos dedos, tarefa excessivamente dolorosa para a falta de resposta. Chamaram por ele, e a voz que grita ecoa no vale, parecendo que também as montanhas o chamam. A luaengrandeceu, como se se aproximasse, e espreitava para ver o que se passa. António não responde. Hoje é nocturno, silencioso e frio. As portas do vale não se trancam, deixaram de se trancar há muito, por isso abriram-na. As botas eram a primeira coisa que se via, logo ao mais pequeno movimento de abertura, depois a gaita-de-foles, depois as roupas, o casaco forrado a lã castanha, e António, iluminado por um traço luar, deitado na sua cama. Tem a cara voltada para cima, de olhos fechados não se sabe o que fitará. Talvez esteja a ver as estrelas que se apagam, talvez não veja nada, talvez esteja a ouvir a melodia que o sol faz quando ele está a dormir. Uma das trementes criaturas aproxima-se de António, que não respira, em tão profundo sono. Acorda, Tó. Mas António não acordou. No dia seguinte o aparecimento do sol foi musicado. A gaita-de-foles de António ecoava no vale, mais baixo que antes, como se fosse só eco, para anunciar o nascimento do dia, para compor a caixa de música estragada. O vale acordou e procurou António, finalmente acordado. Mas não era António quem tocava. António já não estava lá. E não estava em casa, não estava na cama, não estava no rio, não estava onde se visse. As botas dele estavam no mesmo sítio do dia anterior, mas António não. A música tocava sem que António rebentasse as estrelas. Talvez o sol fizesse mesmo um ruído ao aparecer. As criaturas trementes não se sabe para onde foram, mas a gaita-de-foles de António ainda ecoa quando o sol aparece naquele vale.

 

Guilherme Gomes

Gaita de Foles

 

Há pássaros que ainda descansam nos ninhos encharcados pelo orvalho. Os primeiros raios de sol começaram a romper pela copa das árvores há alguns minutos. Amanhece calmamente. É domingo e na aldeia ninguém trabalha.Sem outro aviso, um coro magistral de gaitas de foles começa a sua melodia. São seis da manhã e todos sabem do que se trata. O dia é de festa. As ruas vibram com aquelas notas e uns metros acima, nos ramos, os pássaros despertam. Amanhece lindamente.Para Manuel a história era outra. A melodia, ainda que sinal de festa, já se repetia há oitenta e dois anos e embora nem a recente artrite o tenha impedido de festejar nos últimos anos, as dores de coração são outra questão. Viúvo há duas décadas, nunca um dia passou sem que rezasse ao Santo Pedro para que mantivesse a sua Maria no lado de dentro do paraíso. Era com ela que iria ter não tardaria. Mas naquela manhã, o que lhe despedaçava o coração era Matilde, a filha da sua filha.A beleza da aldeia - título, aliás, confirmado pelo Concurso da Miss Universo da Tasca do Hermano - Matilde, havia-se apaixonado pelo mais bêbado dos gaiteiros, António. Homem que nem sequer era bem parecido, tinha um nariz tão exageradamente desproporcional que ganhou o apelido de "Trambolho".O que viram os olhos azuis de Matilde nas pernas bambas de António, ninguém entendeu. Discutiu-se, coscuvilhou-se, houve rumores de uma história de amor que remontava aos primeiros anos de infância, mas todas eram teorias fugazes. Estórias de entreter. A verdade é que Matilde encontrara o gaiteiro uma noite, junto a um poço. Cantava baixinho. O rosto iluminado pelo luar dava-lhe umas feições quase humanas, tão raramente vistas. Ele viu-a. Ela não fugiu. Falaram durante horas. Ele nem sempre estava bêbado. Sem dar por isso, foram-se falando durante dias e meses, sem que ninguém soubesse, até que a luz do luar já não era suficiente para as conversas e quando aquele amor viu a luz do dia, todos se descoseram em remotas hipóteses inventadas.Faz hoje precisamente um ano que Manuel, também ele com o seu copo a mais - afinal era festa - pegou no pulso da sua neta e lhe perguntou o que todos pensavam, acrescentando: e proíbo-te de voltares a ver esse valdevino! Ela chorou, primeiro lágrimas violentas para se soltar da mão do velho, depois fungos discretos enquanto saía do salão da paróquia. Não a viu desde então. Ainda houve quem levasse Manuel a casa, que embriagado de arrependimento mal caminhava. Outros confortavam-no dizendo azedices do gaiteiro, mas já nada consolava aquele homem.Faz hoje um ano que tudo aconteceu e amanhecer com o sopro do bêbado na gaita dava-lhe náuseas. Sentia saudades da sua pequena. Afinal foi ele quem a criou, pois os pais tanto tempo passaram no campo que lhe coube o trato da criança. Dela escutou as primeiras palavras, ensinou-lhe a atirar um pião e a tocar acordeão. Sentia falta do acordeão.A música dos gaiteiros continuava e Manuel, como o seu coração, partia-se entre o amor por um e o ódio pelo outro. Diabo falou-lhe ao ouvido. Vestiu-se, agarrou num machado, e mais lentamente que o ideal, começou a subir a colina em direcção aos gaiteiros. Ia cortar o maldito do nariz ao António. E a cabeça. Decidiu. Subia.Demoradamente.Quando avistou os gaiteiros, para sua surpresa, António não tocava como nos anos anteriores. Estava de joelho apoiado no chão e mão erguida. Não entendeu imediatamente o que se passava. Foi caminhando, usando o machado como bengala. Estava cansado. Viu a sua Matilde. Estava à janela com um sorriso de uma ternura que ele desconhecia, mesmo nela. Não que Matilde não fosse doce, mas a forma como lhe brilhavam os olhos era nova, era paixão. Depois entendeu! O filho-da-mãe do gaiteiro segurava um anel na ponta dos dedos e pedia a sua neta em casamento. Ao aperceber-se, Manuel agarrou com toda a força no machado, ergueu-o e atirou-o para cima do telhado mais próximo. Correu até à sua neta ainda a tempo de a ver deixar cair, mais uma vez, lágrimas. Estas lindas. Trocaram olhares e o velho estava de tal forma comovido que ela saltou da janela para o abraçar. Abraçaram-se. Matilde aproximou-se do gaiteiro e beijou-lhe os lábios. A melodia rompeu em festa, os homens gritaram: temos casório!Era o início daquela família.Dali em diante, durante anos a fio, uma praga de malmequeres invadiu todos os telhados daquela rua. Distribuíam-se em forma de machado e as mulheres achavam romântico. Mas as constantes infiltrações causadas pelas raízes das plantas fizeram com que os homens, no dia da festa, procurassem pelo machado atirado. Decerto a maldição seria quebrada. O machado nunca foi encontrado.

 

Luís Belo

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